Hiroshi Kimati
USP/ESALQ
Depto de Fitopatologia
Com o advento de fungicidas sistêmicos, no final da década
de 1960, e sua ampla aceitação no mercado, em função
de sua maior eficiência comparativamente aos não sistêmicos,
o problema de resistência de fungos a fungicidas foram aumentando
no mundo todo (DELP, 1980). Não poderia ser diferente no Brasil,
onde, já em 1974, surgia o primeiro relato de sua ocorrência,
em condições de campo. A tabela 1 alista os relatos publicados
desde então, em ordem cronológica.
Tabela
1 - Relatos de ocorrência de fungos resistentes a fungicidas no
Brasil (Adaptado de Ghini & Kimati., 2000)
Ano |
Patógeno/Hospedeiro |
Fungicida |
Autor(es)
do relato |
| 1974 |
Mycosphaerella
fragariae/morango |
benomyl
tiofanato metílico |
Remiro
e Kimati |
| 1985 |
Glomerella
cingulata e Penicillium sp./maçã |
benomyl |
Fortes |
| 1985 |
Monilinia
fructicola/pêssego |
benomyl |
Fortes
e Ferrreira |
| 1985 |
Cercosporidium
personatum/amendoim |
benomyl |
Mariotto |
| 1986 |
Botrytis
cinerea/morango |
benomyl |
Cabrini
e Kimati |
| 1987 |
Botrytis
cinerea/eucalipto |
benomyl |
Ghini
e Kimati |
| 1988 |
Cylindrocladium
scoparium/eucalipto |
benomyl |
Alfenas,
Demuner e Silva |
| 1988 |
Alternaria
dauci/cenoura |
iprodione |
Fancelli
e Kimati |
| 1988 |
Plasmopara
viticola/videira |
metalaxyl |
Nogueira,
Toledo e Sordi |
| 1989 |
Botrytis
cinerea/rosa |
benomyl |
Mosca,
Ghini e Robbs |
| 1989 |
Botrytis
squamosa/cebola |
benomyl |
Ghini
e Kimati |
| 1990 |
Botrytis
cinerea/berinjela |
benomyl |
Ghini |
| 1996 |
Botrytis
cinerea/batata, begônia, ciclâmen, crisântemo,
pimentão e violeta africana |
benomyl |
Ghini |
| 1997 |
Drechslera
teres/cevada |
triadimenol |
Reis,
Casa, Blum, Carmona e Barreto |
| 1997 |
Colletotrichum
fragariae/morango |
benomyl |
Tanaka,
Passos e Betti |
| 1999 |
Fusarium
subglutinans f.sp. ananas/abacaxi |
benomyl |
Santos,
Zambolim, Ventura e Vale |
[Ver a tabela]
Esta
lista, que não pretende ser completa, apenas comprova a suspeita
da ocorrência de resistência. Na realidade, a magnitude
do problema deve ser mais preocupante. Não é novidade
o fato de fungicidas sistêmicos não controlarem, com a
mesma eficiência inicial, os patógenos contra os quais
foram registrados, como, por exemplo, os casos de benomyl-Botrytis cinerea
(macieira e videira), benomyl-Venturia inaequalis (macieira), dodine-Venturia
inaequalis (macieira), metalaxyl-Phytophthora infestans (batata), etc...,
principalmente onde se faz uso exclusivo e intensivo desses produtos.
A análise dos dados acima mostra que benomyl foi o fungicida
mais freqüentemente citado como vulnerável ao problema de
resistência.
Isto talvez se explique:
a) por ser um fungicida de alto risco (Dekker et al., 1982), com capacidade
de selecionar mutantes altamente competitivos;
b)
por ter sido um dos primeiros sistêmicos a serem lançados
no mercado e, portanto, com maior tempo de exposição e
seleção dos patógenos visados;
c) por ter um amplo espectro de ação, com alta eficiência
a patógenos de rápido desenvolvimento epidêmico,
como o Botrytis cinerea (justamente o fungo mais citado na tabela acima);
Mycosphaerella fragariae, Glomerella cingulata, Monilinia fructicola,
Cercosporidium personatum, etc.;
d) por ser formulado sozinho, desde o início do lançamento,
até hoje; e
e) pelo mal uso (aplicações exclusivas, repetitivas, e
doses mais elevadas do que a recomendada).
O iprodione foi citado apenas num caso isolado de resistência
de Alternaria dauci, em uma cultura de cenoura exclusiva e intensivamente
tratada com o produto formulado sozinho, talvez por ser um composto
de menor risco (considerado de risco moderado), com relação
à capacidade de selecionar linhagens resistentes competitivas;
de fato, linhagens resistentes de Alternaria dauci se mostraram menos
patogênicas a três variedades de cenoura (Fancelli et al.,
1991).
Merece destaque a falha de tratamentos de sementes de cevada com triadimenol
no controle de Drechslera teres (Reis et al., 1997), após mais
de 10 anos de sua introdução, mostrando que, mesmo produtos
de baixo risco, como os triazóis (Dekker et al., 1982), podem
ter problemas de resistência sob suficiente pressão de
seleção (uso exclusivo, prolongado).
O metalaxyl, considerado fungicida de alto risco (Dekker et al., 1982),
foi contemplado com apenas um relato de falha no controle do míldio
da videira (Nogueira et al., 1988).
A indústria responsável pela fabricação
e distribuição do produto no mercado brasileiro, escolada
na amarga experiência do lançamento da formulação
simples no controle da requeima da batata, na Europa (Davidse et al.,
1981), usou de algumas estratégias para tentar evitar a falha
do controle:
a) a formulação mista de metalaxyl, inicialmente, com
folpet ou com mancozeb e, mais tarde, com chlorothalonil;
b) limitação do número de aplicações
a 4, por estação de cultivo, por cultura;
c) desaconselhamento de tratamentos puramente erradicantes ou curativos;
d) estabelecimento de um sistema de monitoramento da resistência,
em convênios com universidades, desde 1982.
Não obstante essas precauções, o uso abusivo (na
época do lançamento, era o único fungicida sistêmico
altamente eficiente contra oomicetos) , em condições muito
favoráveis ao desenvolvimento de epidemias, como no caso do míldio
da videira, em túneis de plástico, ou da requeima em variedades
altamente suscetíveis de batata, irrigada por aspersão,
provocaram casos de falhas de controle; hoje tais casos são menos
freqüentes, havendo opção de novos fungicidas, de
modo de ação diferentes, eficientes aos oomicetos, para
aplicações rotacionadas.
No âmbito da comunidade fitopatológica brasileira, além
dos relatos acima comentados, a preocupação pelo problema
da resistência de fungos a fungicidas motivou a realização
de vários eventos.
Assim, no Simpósio sobre resistência de fitopatógenos
a defensivos agrícolas, durante o X Congresso Paulista de Fitopatologia,
realizado em Piracicaba, SP, em 1987 (Summa Phytopathologica, 13:72-90),
foram submetidos a debate os temas: "Resistência de fitopatógenos
a substâncias químicas usadas no controle de doenças
de plantas", por H.Kimati/ESALQ-USP ; "Resistência de
fungos a fungicidas do grupo dos benzimidazóis", por R.Ghini/ESALQ-USP;
"Resistência de fungos a fungicidas do grupo das dicarboximidas",
por M.I.Fancelli/ESALQ-USP; "Abordagem do problema de resistência
de fungos a fungicidas pela indústria química", por
O.J.Sponchiado e G.Mueller/Ciba-Geigy Química S.A.; "Abordagem
do problema de resistência de fungos a fungicidas benzimidazóis
e inibidores de esterol, pela indústria química",
por A.C.C.Vianna/Du Pont do Brasil SA.; e "Resistência de
bactérias fitopatogênicas a antibióticos",
por C.Kurozawa/UNESP Botucatu.
Também estão registradas palestras sobre "Resistência
de fitopatógenos a fungicidas", por G.Asmus/Ciba-Geigy Química
S.A., no XXIV Congresso da Sociedade Brasileira de Fitopatologia, realizado
no Rio de Janeiro, em 199l (Fitopatologia. Brasileira. 16:V); sobre
"Fungicide Resistance", por Arnold/DowElanco, no XXVIII Congresso
da Sociedade Brasileira de Fitopatologia, realizado em Ilhéus,
Ba, em 1995 (Fitopatologia Brasileira. 20:271); e sobre "Fungicide
resistance:occurrence and management strategies", por R.A.Hamlen/DuPont,
no XXII Congresso da Sociedade Paulista de Fitopatologia, realizado
em Jaboticabal, SP, em 1999 (Summa Phytopathologica 25:88-90).
Não obstante se observar, nesses eventos, a ativa participação
da indústria química, a ação conjunta dos
fabricantes frente aos emergentes problemas de resistência de
fungos a fungicidas só se concretizou, no Brasil, em 25 de junho
de 1999, com a criação do Comitê de Ação
a Resistência a Fungicidas (FRAC-Brasil), associado ao FRAC internacional,
criado em maio de 1981.
Desde sua recente criação, o FRAC-Brasil vem atuando cooperativamente,
tendo já realizado reuniões, planejamento de ações
em conjunto, elaboração e publicação de
um livro sobre resistência (Ghini & Kimati, 2000) e curso
de treinamento aos seus filiados (Curso sobre Resistência de Fungos
a Fungicidas, em 30-31 de março de 2000, na EMBRAPA/Jaguariuna,
SP).
Essas atividades, exercidas e em andamento, visam atingir os principais
objetivos da entidade, que são: prolongar a eficiência
do fungicida sujeito a problema de resistência e limitar as perdas
decorrentes do seu eventual surgimento, para todos os segmentos envolvidos
na produção agrícola.
O FRAC-Brasil está no bom caminho. "A educação
foi sempre, e continua a ser, uma importante prioridade do FRAC, pois
se os princípios de combate à resistência não
forem perfeitamente entendidos e aceitos, as estratégias anti-resistência
terão pouca chance de sucesso.
Desde sua formação, o FRAC reconheceu a necessidade de
alertar as pessoas envolvidas na pesquisa, produção, "marketing",
registro e uso de fungicidas para os problemas de resistência,
assim como de assegurar que todas essas pessoas compreendam as razões
da ocorrência da resistência e como este processo pode ser
evitado ou retardado" (Urech et al, 1991).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DAVIDSE,
L.C.; LOOIJEN,D.; TURKENSTEEN, L.J.; VAN DER WAL, D. Occurrence of metalaxyl
resistant strains of Phytopththora infestans in Dutch potato fields.
Netherlands Journal of Plant Pathology, 87:65-68. 1981
DEKKER, J.; GEORGOPOULOS, S.G.. Fungicide resistance in crop protection.
Wageningen: Centre for Agricultural Publishing and Documentation, 1982.
265p.
DELP, C.J. Coping with resistance to plant disease control agents; Plant
Disease 64:652-658, 1980.
FANCELLI, M.I.; KIMATI, H. Comparação patogênica
de isolados de Alternaria dauci sensíveis e resistentes ao fungicida
iprodione, através de inoculação de sementes, em
cultivares de cenoura. Summa Phytopathologica 17:232-237. 1991.
GHINI, R.; KIMATI. Resistência de fungos a fungicidas. Jaguariúna,
SP: Embrapa Meio Ambiente, 2000. 78p.
NOGUEIRA, E.M.C.; TOLEDO, A.C.D.; SORDI, I.M.P. Plasmopara viticola
resistente ao metalaxyl no estado de São Paulo. Fitopatologia
Brasileira13:103. 1988.
REIS, E.M.; CASA, R.T.; BLUM, M.M.C.; CARMONA, M.; BARRETO, D. Sensibilidade
de Drechslera teres ao fungicida triadimenol usado em tratamento de
sementes de cevada. Fitopatologia Brasileira 22:539-542. 1995.
URECH, P.A.; EGLI, T.A. FRAC-Grupo de ação de resistência
a fungicidas. Reflexão dez anos após sua criação.
Summa Phytopathologica 17:85-89. 1991
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